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Santos Casais da Ferreira

policiario2016@gmail.com

COISAS SEGUIDAS DE CONVERSA


 

Estava aos pontapés à ratazana que saíra da sanita, para evitar que entrasse em casa. Resistente, a rata regressou ao interior do  esgoto de onde saíra, e só uma mistura de água com ácido nítrico, despejada no dia a seguir lhe tratou devidamente da saúde.

A malta que se fizera passar por seus amigos, afastaram-se, para que a má fama  que eles próprios lhes tinham dado, não os atingisse também.

Chegou perto do robot, que comprara a juros, e que alugara á grande usina operacional, sendo remunerado pelo labor efetuado por ele, de acordo com o contrato e lei em vigor. Tomou nota das horas de serviço efetuadas, feita na leitura do contador automático, atualizado pelo melhor software disponível no mercado. Contabilizou-as e memorizou-as no seu PC.

O relato de uma bronca programada para o humilhar, caso tivesse caído na ratoeira de aparecer, foi-lhe dito e contado em pormenores pela sua amiga e antiga vizinha, por quem era estimado, que soubera de outra fonte, essa ao que parece insuspeita.

O argumento da “comédia”, o oportunismo, o engodo usado, não traziam nada de novo ao modus operandi anteriores.

Outra amiga que o visitava no esconderijo, onde fora forçado a residir, por causa da violência psicológica e o caráter funerário das ameaças, e com ele fazia sessões de leitura, lendo à vez, e alternadamente os textos em voz alta.

Leu-lhe nessa noite esta passagem da Bíblia:

 

«Davi levou a sério aquelas palavras e ficou com muito medo de Aquis, rei de Gate.

Por isso, na presença deles ele fingiu estar louco; enquanto esteve com eles, agiu como um louco”, 1 Samuel 21:12-15.

 

— Será vantajoso fingir-se de louco, para contornar o inimigo, quando se está em desvantagem e quase à sua mercê? — Perguntou-lhe.

— Não sei. Ainda não analisei bem, o assunto. Mas há também um caso semelhante no Hamlet. Deixa-me ver se encontro o livro. Levantou-se foi à estante procurar.

— Eis aqui. Escuta só:

— “não estou louco de verdade, estou louco por astúcia”.

— Diz o Hamlet, não é?

— Sim.

— O fingimento da loucura fazia parte da estratégia para combater o tio.

— É um assunto nada fácil — disse ela — virá alguma coisa sobre isso na Arte da Guerra?

— Vou procurar. Entretanto tomemos um café. Sempre pensas em ir ao concerto dos Stones?

— Se também fores, vou contigo.

— Vamos então.

— Vais conseguir despistar os teus perseguidores?

— Talvez. Fiz o download do “Manual do bom despistador”, de um site especializado na net. Tem algumas dicas interessantes. Vou usar a que eles indicam para este tipo e género de situação.

— Conseguiremos ir em paz como nos assiste, como temos direito?

— Iremos com o risco calculado, usando a contrainformação para lhes fazer chegar aos ouvidos, que têm à espera uma brigada internacional para os deter.

— E funciona? — perguntou a amiga inquieta.

— Tem resultado. Não aparecem com medo que seja verdade.

— Tenho lido por alto o livro de Sun Tzu. — continuou — Pode ser que esta passagem tenho algo a ver com o assunto:

 

"Toda a guerra é baseada no engano. Assim, quando capaz de atacar, devemos parecer incapazes; Ao usar nossas forças, devemos parecer inativas; Quando estamos perto, devemos fazer o inimigo acreditar que estamos longe; Quando estiver longe, devemos fazê-lo acreditar que estamos perto."

 

— Faz sentido — disse a amiga — com essa é que os vais lixar.

Sorriu, como se não acreditasse, quando ele se voltou para pegar o maço e fumar um cigarro.

 

 

 

 

Santos Casais da Ferreira