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Santos Casais da Ferreira

policiario2016@gmail.com

EXPECTATIVA GORADA

EXPECTATIVA GORADA


Esperava o comboio na estação ferroviária para ir até à capital.

Comprara no bar um maço de cigarros, e uma bucha para comer mais tarde. Tinha pela frente uma brilhante missão a efectuar. 90 minutos mais coisa menos coisa o separavam do começo. Chegado à estação de destino, foi para a paragem de autocarros. Entrou no 28 e saiu na Praça do Comércio, ministério à vista.

Apresentou-se à porta de armas. A sentinela revistou-o a fim de detectar o porte eventual, de alguma munição subversiva. Posto que feito isso, foi depois direccionado até ao gabinete do ministro do pelouro, e que, segundo lhe tinha dito o padrinho, lhe iria colocar em bom emprego.

Aguardou na antecâmara de espera, que fosse chamado, o que só veio a acontecer quando começava a desesperar, quando as forças da decepção, do mais um engano, do mais um barrete, entravam pelo flanco desguarnecido, fazendo as tropas do bom senso, porem-se em fuga desordenada.

A simpática secretária disse-lhe então que iria ser recebido.

Disse-lhe o ministro:

— Traz consigo o certificado de habilitações do Complementar, e o diploma do Curso Geral?

Ele acenou que sim, abriu a pasta e tirou os documentos pondo-os à disposição do ministro.

Este leu tudo de fio a pavio e visivelmente satisfeito com as altas classificações obtidas, disse-lhe:

— O senhor tem médias confortáveis para o trabalho a executar. Aguarde só um momento. Vou telefonar para a unidade onde a vaga está em aberto. Foi a vez de ele se sentir satisfeito, alegre e esperançado no bom rumo dos acontecimentos.

— Está resolvido meu caro. Vai apresentar-se nesta data (e escreveu num papel) na delegação oficial da tutela.

— Obrigado! — disse-lhe — e cumprimentaram-se com educação.

Saiu para praça, e apanhou um eléctrico para o centro da Capital, a fim de fazer algumas compras. Talvez uns CDS, ou livros, que não chegavam no percurso do circuito comercial, a ser postos à venda, na sua cidade no interior da província.

Comprou o “Moon Flower” ou “Flor de La Nuna”, duplo CD de Carlos Santana, e o livro “Sinais de Fogo” de Jorge de Sena.

Ainda não acreditava bem, que conseguira o seu primeiro emprego, o seu primeiro vencimento, a resultar da venda da sua mão-de-obra cerebral, a xis por hora a consignar, no futuro contrato laboral.

Ia na rua, observando as moças bonitas, e mesmo as que, nem por isso, que passavam, viu as horas, e organizou de imediato o “programas das festas”. Tinha tempo de almoçar, ir ao cinema e regressar nas calmas, em superior ordem acrata, à sua cidade no campo.

Entrou num restaurante de aspecto arejado, construído com uma arquitectura que lhe pareceu assaz, a modos que, algo contemporânea, convidativa a efectuar uma refeição

Não pode esperar pelo prato do dia e decidiu-se por um bitoque com ovo a cavalo, regado com um jarro de vinho, de dois decilitros e meio.

O filme que iria ver, estava a gerar alguma polémica entre o pessoal, devido ao estilo narrativo no campo cénico, de movimento contínuo, diziam os entendidos no assunto.

Pensara na “Laranja Mecânica", porém já só se encontrava em exibição o “Império dos Sentidos”.

Findo o cinema, apanhou o comboio das 19 horas, de regresso à província. Deu a boa nova aos pais, e aos camaradas de fim de curso, que andavam na mesma tarefa, na mesma procura.

No dia marcado, rumou à delegação oficial da tutela, na expectativa do primeiro dia de trabalho, no primeiro emprego após o fim de curso.

Há hora escrita no postal de chamada, no local indicado no mesmo, lhe abriram a porta para a sala de espera.

E disseram-lhe depois de apresentada a convocatória, educadamente para esperar.

Passadas algumas horas, começou a pensar se tudo aquilo não seria em engano, um embuste para o edificar como o estronço, da inspecção profissional e oficial, da especialização integral e desigual, tanto como por outro lado igual, vertical, ascensional, da ocidental praia Lusitana “a quem Neptuno e Marte obedeceram”.

Estas ideias turvas, "aviltavam-lhe" o juízo, quando a porta da sala de espera se abriu, e uma bonita funcionária, lhe disse que afinal de contas, a vaga acabava de ser preenchida, pelo que lhe desejou a melhor das sortes, noutro lado.

E um sorriso lindo e que lhe pareceu, quiçá, um tudo nada maroto, encerrou a questão. Daí que como lobo, escorraçado do acesso às sobras da boda, meteu a cauda entre as pernas, e dirigiu-se para a central rodoviária, a fim de apanhar a camioneta de carreira.




Santos Casais da Ferreira