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Santos Casais da Ferreira

policiario2016@gmail.com

"ÁRVORE MORTIS" OU A NOVA DIMENSÃO

Na distância espaço/tempo, que envolve e obscurece o pensamento , a Terra borbulhava em êxtase de mal-contida incerteza. A semente lançada ao solo pela humanidade, que depois viria a germinar a "Árvore Mortis", pulsava fremente de vida.

O corpo enfermo, de tédio crescente, e desgosto do inevitável, jazia letárgico, junto à margem do rio, poluindo a água, sempre que nela se banhava. Procurava assim encontrar e obter a nova vitalidade, na pouca frescura ainda possível vislumbrar na corrente. O seu cérebro, torpe e inerte, na irrealidade do sucedido, caminhava com a água para o fim eminente.

Em redor, a paisagem era desoladora e inútil para os olhos de qualquer ser vivo. O deleite de se observar a arte, transformara-se num escarpado pesadelo, no qual cada movimento, significava uma nova queda no abismo, escuro de espadas e rochedos infernais, e pontiagudos no fundo da maldição.

Tudo o que havia sido vegetal, desaparecera de todo. O solo encontrava-se coberto por névoa de delicada transparência, que se movimentava em leves e preguiçosas ondulações, quando alguma brisa proveniente do nada, imitava um sopro. A espaços irregulares, era possível ver densas nuvens de vapor, constituído por gazes venenosos, que brotavam do chão num aviso permanente ao nascer de uma nova vida. As aves já não podiam ser observadas voando, mas sim num manquejante rastejar, como se as asas só pudessem ser utilizadas para esse fim. O tudo transformara-se em nada, enquanto este permanecia inalterável.

No entanto, o impossível, agora realizado, havia sido previsto por sábios e profetas no mesmo momento em que havia sido planeado por ambiciosos e hipócritas.

As razões dessas profecias e os fins desses planos, encontravam-se ao cabo de tanto tempo, plenamente confirmadas e realizadas, com a consequência “Árvore-Mortis”.

O tétrico, uivo celulósico, saído da noite, era imperador, ocupando a região que se estende desde o mais profundo até ao mais superficial campo do cérebro humano. O silêncio, majestosamente vestido de negro, caminhava cada vez mais sisudo, originário de todos os lados, com destino ao local em que se daria o nascimento da primeira “Árvore-Mortis”. A cerimónia estava prevista para breve, segundo os derradeiros murmúrios transportados pela brisa ascensional. O grande momento tomava forma e sentido, rodeando-se a pouco e pouco, de um ambiente tenebroso e pesado. O solo fértil, que antes ajudara a germinar sementes que alimentavam a vida, continuava fértil, quando ajudava a procriar as sementes, que iriam dar o alimento necessário à morte.

A vida e a morte encontravam-se por fim em conjunção num ponto comum, que tinha por origem a sua fonte alimentar.

No pensamento, tudo se tornava mais leve e sóbrio que a própria vaidade. Estava longe a austeridade de se ser vivo. Descobria-se a cada momento, como era fácil e lógico morrer. O auge desta descoberta, apareceu exactamente com o ponto mais doloroso do sofrimento: A nova dimensão, ou o estado em que já não se vive, mas em que ainda não se morreu.

Por fim, a primeira “Árvore-Mortis” brotou. Contra tudo o que se previa, não houve qualquer convulsão ou tremor violento, para além do borbulhar já existente. O silêncio tornou-se ainda mais pesado com a solenidade do acontecimento. Os primeiros ramos, firmes, e bandoleando com aspeto frágil, irromperam hesitantes, como se tivessem terminado uma longa e obstinada viagem, pelas entranhas da Terra.

A principio executaram diversos e angustiantes movimentos, como que num estrebuchar secreto. Arrastara-se assim durante longos momentos, até que por fim os galhos se ergueram ondulantes, como se estivessem embriagados, chocaram-se e envolveram-se por diversas vezes, como se lhes fosse penoso evitarem-se. Finalmente, deixaram-se cair abruptamente sobre o solo, ao mesmo tempo que começaram a soltar longos estertores, comparados a agoirentos uivos de lobos. A atmosfera impregnou-se de odores nauseabundos, que penetravam profundamente nas narinas, até tocarem a carne quase putrefacta, e envenenarem o sangue já parado nas veias e artérias. Impercetivelmente, tudo se ia intensificando. Tudo era cada vez mais denso. De súbito, começaram a surgir mais ramificações de todos os lados, que executavam o mesmo ritual, o qual terminava de maneira semelhante . O silêncio foi deste modo fendido com vigorosas facadas, parecendo sangrar à medida que os ramos rebentavam. Passados agonizantes momentos, nada mais existia sobre a terra, que não fossem ramos e gritos agudos. A névoa começou a adensar-se e tornou-se gelatinosa, envolvendo os corpos caídos, num abraço de ódio e de morte. Era o julgamento. Deste modo, e plena de vigor energético, apresentava-se a última descoberta cientifica da humanidade, gritante de sede e de justiça.

Caiu de novo em si, na esperança de pela última vez retratar um pouco de beleza… Olhou para o rio junto do qual se espreitava. Aterrorizou-se ao verificar que as águas, ao contrário do inicial, eram esverdeadas e ferviam, já ao ponto de ebulição, como se estivessem possessas.

A última narrativa visual, transformou-se numa última lágrima que se soltou preguiçosamente, e lhe rolou pela face curtida de chagas, contornou o canto da boca, até se dependurar no seu queixo com um ar melancólico e dorido.

Adormeceu sobre o seu pasmo de incredulidade, e manteve-se assim absorto e alheio a tudo o que o arrastava para o fim. Quando voltou à realidade, a primeira percepção que obteve, foi a do silêncio. Não se ouvia um ruído.

Pesadamente levantou os olhos, e só então compreendeu a falsa calma que o rodeava.

Finamente viu-a.

Os ramos uivantes, haviam dado lugar a grossos troncos de uma cor que podia ser classificada como um castanho-sujo. Cresciam e pareciam olhar em redor ávidos de carnificina. Ao longo deles, retorciam-se longas e gelatinosas algas de um cinzento-negro, que bem podiam ser entendidas como sendo cabelos. Um liquido oleoso e sujo, escorria em todo o seu comprimento. Parava ao encontrar alguma saliência, mas ia cascalhar até ser suficientemente pesado para a ultrapassar. Do interior da Terra, levantou-se um leve rumor, que aumentou até se estabelecer a um nível ensurdecedor. Em seguida, o solo tremeu em violentos rasgos de angústia. A “Árvore-Mortis”, a nova forma de vida superior, surgia plena de raiva e ódio macabro. Os ramos que haviam rompido em primeiro lugar, encabeçavam agora aquelas fantasmagóricas figuras. Começaram a desenvolver-se, tomando formas bizarras, e atingiram por fim o seu ponto de completa evolução, quando lhes surgiram nas pontas, quezilentas ventosas, que ao mesmo tempo eram possuidoras de agudos dentes ou mal definidas garras. Quando todos aqueles seres atingiram este ponto, considerado por eles de maturidade máxima, deu-se inicio ao repasto.

Começaram por se voltar , como se observassem todos os despojos que se estendiam em seu redor. Quando deram por finda esta estranha observação, iniciaram o diabólico ritual alimentar, que seria a sua última visão, e haveria de perseguir o seu espírito através das estrelas, por toda eternidade.

Principiaram por pegar com cuidado nos animais moribundos que juncavam o chão. Muito devagar, introduziam-lhes as ventosas nas entranhas, sugando-lhes calma e saborosamente o espírito. Os gritos aterradores daqueles que ainda o podiam fazer, encheram o ar com rasgos de dor. Era como se uma grande orquestra acompanhasse a boda.

Por fim, quando o animal já não possuía uma gota de sangue, os ramos envolviam-lhe o corpo e trituravam-lhe lentamente a carne e os ossos, num ranger surdo, até o transformarem numa pasta viscosa, que era ingerida do mesmo modo que o sangue. Não ficava um único vestígio de que pudesse ter existido momentos atrás. Cada “Árvore-Mortis” repetia os mesmos gestos, logo após o término de cada rito. A sua função era só aquela. Ela fora criada para destruir sem descanso. O Universo estaria dentro em pouco, pejado de novas “Árvores-Mortis”.

Onde pudesse existir vida inteligente, elas haveriam de surgir um dia para darem continuidade à sua obra.

Por fim, chegou a sua vez.

Sentiu-se erguido do local onde jazia e rasgado pelos agudos dentes. Não pode conter os gritos que lhe saíram pela garganta ressequida. Sentiu as tripas reviradas e remexidas, como se um número de infindáveis de espadas, percorresse todos os recantos do seu corpo.

Com as últimas forças que o terror lhe avivou, agitou-se esporadicamente, como se houvesse alguma possibilidade de evitar aquele acontecimento, que se podia considerar imundo, desde que o primeiro homem existira. Contudo, acabou por desfalecer.

Nos últimos momentos, ainda julgou ouvir a “Árvore-Mortis” que ele alimentava, murmurar:

— Obrigado por teres contribuído para a minha existência.

FORA COMO SE ACABASSE DE MORRER ÀS SUAS PRÓPRIAS MÃOS.

Santos Casais da Ferreira